Antes de propor quaisquer mudanças, é preciso compreender quais são os principais métodos utilizados por produtores de conteúdo para rentabilizar suas iniciativas. Lendo sobre teóricos das novas mídias (como Henry Jenkins) e consumindo produtos digitais, pude perceber três principais estratégias:

  1. Venda de visualizações. Este é o método mais antigo, já utilizado pela televisão, rádio e jornais impressos há muito tempo. Basicamente, é a venda de espaço do programa para empresas que se interessem pelo público consumidor do conteúdo.
  2. Lojas virtuais. Quando criadores de conteúdo tem uma relação forte com seu público, há a possibilidade de venda de produtos vinculados à sua marca. Na maioria das vezes, são camisetas e canecas com frases ou imagens icônicas nas relações produtores-consumidores.
  3. Financiamento Coletivo. Acho este o mais desafiador, pois exige uma desconstrução do conceito de gratuidade que temos em relação à produções digitais. Como o nome supõe, é a aposta no investimento direto do público, por meio de plataformas como o Patreon — usado para um financiamento integral — e o Catarse — normalmente utilizado para arrecadar dinheiro suficiente para iniciar um projeto.

É comum ouvir que o mix dessas estratégias é vital para a saúde financeira de produções digitais. No entanto, na grande maioria das vezes, as alternativas citadas são rentáveis apenas quando o público é consideravelmente grande, visto que o valor de visualizações é menor na internet do que em outras plataformas, enquanto os outros métodos de arrecadação dependem de consumidores ativos e em boa situação econômica, normalmente apenas uma pequena porcentagem da audiência.

Por ser uma mídia relativamente nova, as grandes empresas (patrocinadores) ainda temem gastar grande parte do seu orçamento de publicidade com conteúdo não-tradicional, e quando resolvem gastá-lo, o fazem em números muito menores ou com altas expectativas de ROI (Retorno de Investimento). E é claro que ainda existem antigas relações entre as marcas e empresas de mídia que visam minar os avanços do cenário digital.

“E aí ele disse: o público do meu blog é tão valioso quanto o da televisão!”

Então, é possível ganhar dinheiro na internet? Claro que sim! Várias pessoas já conseguiram. Na verdade, o que eu venho propor são ações dos principais players deste cenário para que projetos interessantes não precisem de números exorbitantes para tornarem-se produtivos.

Transparência

Primeiro e mais importante: precisamos de transparência. Não, eu não estou dizendo que quem faz sucesso online tem que divulgar seus gastos e lucro, nem divulgar seus segredos.

O vital é criar um ambiente transparente de troca de experiências sobre o cenário digital e sua monetização. O que quero dizer é que são poucos os espaços de discussão ou informação sobre casos de sucesso, mesmo para alguém procurando ativamente por isso.

Se quisermos tornar produção de conteúdo digital uma profissão viável na próxima década, é necessário que mostremos o caminho das pedras, o know-how do trabalho. Assim como este conhecimento existe em outras carreiras — na maioria das vezes ligada à uma faculdade, um estágio e uma efetivação — ele é fundamental como atrativo para futuros talentos.

Além disso, a transparência ajuda a dar confiança para patrocinadores em potencial. São poucos os sites, canais e podcasts que divulgam seus números de visualizações, por exemplo, mesmo sendo esta a principal moeda de troca entre produtores e patrocinadores.

Estratégia

Um dos discursos recorrentes na web para aqueles que desejam se iniciar neste cenário é que o essencial é ser apaixonado pelo conteúdo que será desenvolvido, e que o resto se ajeitará. Mesmo que o amor pelo tema seja indispensável na atual conjuntura (onde é frequente o trabalho gratuito nos primeiros meses), não deveríamos pensar no projeto como um hobbie, e sim como um trabalho.

E como qualquer projeto que visa ser mais do que APENAS prazeroso, é imprescindível ter uma boa estratégia — coisas como táticas de divulgação, público-alvo, benchmark — . Isso pode soar um pouco como empreendedorismo de palco, mas na verdade, é só um pouco de tempo dedicado ao porquê e como produzir conteúdo relevante (plano de negócio).

Regulamentação

Eu entendo que “regular” é uma palavra forte para a internet e pode ser muitas vezes confundida com “censurar”. A regulamentação burocrática e lenta, que tem como objetivo limitar ou taxar produtores e consumidores é mesmo problemática e vai contra a natureza da web. Por outro lado, muitas empresas tem receio em ligar sua imagem aos criadores de conteúdo, temendo as informalidades da internet.

Portanto, o que precisamos é de uma regulamentação justa e que agrade marcas e produtores. Ainda que pareça utópico, o acordo seria mais do que frutífero para ambos, visto que diversas empresas estão sedentas por este cenário mais segmentado e diverso — já que antes era necessário um grande investimento para atingir o público na TV, no jornal ou no rádio.

O público em geral também seria beneficiado com esta regulamentação, visto que ela criaria um cenário mais seguro e rico, aumentando o nível das produções e tornado-as mais confiável às crianças.

Liderança

Para que isso desse certo, seria necessário que os principais players da atual conjuntura, tanto as principais marcas do país quanto as maiores referências da internet, atuassem de maneira ativa para mudar e estabelecer novos parâmetros para o mercado.

No fim, não acho que a internet precisa de uma puta reestruturação e nem que é necessário mudar sua natureza independente e colaborativa. O que eu desejo é que as novas mídias se tornem ainda melhores, aprendendo o que puderem de seus predecessores sem perder suas qualidades que a tornam tão únicas.

Este texto não contém as soluções certas para uma internet melhor, e nem é de meu interesse (ou capacidade) estabelecer o que deve ser feito online. O que eu quero é iniciar um diálogo sobre propostas de mudanças que podem auxiliar no amadurecimento sadio da internet. Com certeza eu deixei alguma coisa de fora ou soei otimista e utópico demais. Por isso, peço que me corrijam, complementem e auxiliem nos comentários.



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